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Bancos adotam modelo híbrido de trabalho na volta ao escritório

Valor Econômico



No começo da pandemia, os bancos rapidamente colocaram em home office centenas de milhares de funcionários, num movimento até então impensável até mesmo para os executivos do setor. Agora, é hora de voltar, ainda que num esquema bem diferente do que havia no mundo pré-covid.


O trabalho remoto continuará fazendo parte da rotina, mas não o tempo todo. Se, no início da pandemia, algumas instituições financeiras chegaram a cogitar um home office permanente para departamentos inteiros, agora parece haver um consenso em torno de um esquema híbrido, com alguns dias em casa e outros no escritório. Os parâmetros desse esquema diferem de banco para banco, mas todos estão adaptando estruturas físicas e procedimentos para receber de volta quase a totalidade dos funcionários - o que requer medidas para preservar o distanciamento e outras exigências sanitárias, já que a pandemia não acabou.


Com 87.736 funcionários, incluindo pessoal de agência, o Bradesco anunciou no fim de setembro o retorno gradual aos escritórios. Nas áreas administrativas, 40% já voltaram, num esquema de revezamento em que metade do público elegível vai a cada semana. O plano é ir elevando gradualmente esse percentual, até chegar à quase totalidade. Gestantes e grupos de risco, que representam pouco menos de 5%, só voltarão quando a pandemia acabar definitivamente.


O banco fez uma série de estudos sobre o retorno ao presencial. “Temos um grupo de gestão que acompanha todas ações, perguntamos aos funcionários qual era a pré-disposição existente ao retorno. Não há nenhum tipo de obrigatoriedade, queremos que o funcionário entenda o processo e perceba que desejamos um retorno saudável, estruturado”, diz Glaucimar Peticov, diretora-executiva do Bradesco.


Atrair a equipe de volta não é tarefa das mais simples. No Itaú Unibanco, desde a semana passada toda a força de trabalho já pode, em tese, retornar aos escritórios. No entanto, o banco está começando a realizar uma campanha para incentivar essa volta.


O Itaú, que tem 86.195 funcionários no Brasil, começou um teste em setembro com 5 mil deles. Do público elegível, só 3% estava de fato frequentando os prédios administrativos. Segundo Sérgio Fajerman, diretor e membro do comitê executivo responsável pela área de pessoas, muitos se sentiam desconfortáveis em ficar o dia inteiro de máscara - como é exigido - e por isso acabavam preferindo permanecer no trabalho remoto.


Daí, a ideia da campanha. “Não temos uma data para definir formas, prazos, se tornaremos o retorno obrigatório. Estamos dando um passo cada vez”, diz o executivo. Segundo ele, os funcionários estão sendo ouvidos, mas no fim do dia o banco tem de tomar as decisões mais adequadas para o funcionamento da instituição.


Fajerman afirma que o Itaú acompanha mais de 70 indicadores de produtividade, e houve melhora no trabalho remoto em 75% deles. Mesmo o engajamento dos funcionários melhorou, com o NPS (métrica de satisfação) deles subindo quase dez pontos. Apesar disso, o convívio entre as pessoas é visto como importante para a manutenção da cultura da empresa. “Qual é o impacto disso na cultura organizacional no longo prazo? São coisas que não dá para medir.”


O Itaú tem operado com três modelos: o presencial; o híbrido com regras, ou seja, com uma escala pré-definida dos dias em que os funcionários deverão estar no escritório; e o híbrido flexível, onde o colaborador escolhe o melhor dia, horário e local para o trabalho presencial. Cada área define o modelo que melhor se adapta à sua realidade. Cerca de 25% do quadro total se encaixa no modelo presencial. Em qualquer cenário, apenas metade do espaço físico do banco poderá ser ocupada.


O Banco do Brasil (BB) também começou um processo de retorno gradual para funcionários que estavam em home office e que não são de grupos de risco. “Todo o movimento vem também respeitando as diretrizes de segurança à saúde e é avaliado e orientado pontualmente de acordo com as características de cada unidade”, disse a instituição em resposta ao Valor.


No auge da pandemia, o BB adotou o trabalho remoto para 36,33% do quadro, mas o banco avalia que a melhoria sanitária vem possibilitando o incremento das atividades presenciais. A instituição tem 85.069 colaboradores. “O BB tem como uma de suas prioridades a segurança das pessoas.


Desde março de 2020, fez aquisições de mais de 670 mil máscaras de tecido para funcionários e estagiários, além da distribuição de 450 mil máscaras modelo N95 e 52 mil visores frontais fabricado em material transparente para funcionários que prestam atendimento ao público.”


Entre os bancos estrangeiros, o Citi pauta a volta aos escritórios de acordo com políticas globais estabelecidas pelo conglomerado americano. Agora, está sendo iniciado o retorno voluntário de 30% do quadro - que tem 1.925 colaboradores - e depois será feita uma avaliação. Serão observados eventuais casos de contaminações entre os funcionários, estabilidade da pandemia no país e outros fatores. No pós-covid, a maioria dos funcionários deve ficar no modelo híbrido, três dias por semana no escritório e os outros dois em casa.Globalmente, o banco criou uma escala de cores (vermelho, laranja, amarelo e verde), que leva em conta quatro fatores: mortes por milhão, novos contaminações, ocupação de UTI e número de vacinados. O Brasil está na faixa amarela, caminhando para a verde. Guilherme Mancin, responsável por recursos humanos no Citi Brasil, diz que o objetivo da política de ter o funcionário três dias por semana é formar a cultura empresarial. “Se a gente tiver o funcionário o tempo todo fora do escritório, não forma a cultura da empresa. Para o nosso alinhamento ético, a formação da cultura é essencial”, afirma.


Peticov, do Bradesco, concorda com essa visão. No entanto, afirma que deixar o funcionário ir alguns dias por semana tornaria a presença nos escritórios muito “picadinha”, dificultando justamente a transmissão da cultura. “Os grandes processos de inovação são coletivos, e para isso as conexões, as trocas são necessárias. Se temos uma presença fatiada, começa o processo de troca e depois é esquecido. Com esse modelo intercalado, o processo vai sempre se rompendo, não tem continuidade”, diz.


Seja como for, alguns departamentos possivelmente manterão a maior parte do trabalho de forma remota. Um dos principais expoentes são as áreas de tecnologia, que se adaptam muito bem a essa formato. Além disso, com a possibilidade de o funcionário trabalhar de casa, os bancos ampliam o leque de contratação para outros Estados e até países. Com a digitalização acelerada promovida pela pandemia, os profissionais de TI estão cada vez mais difíceis de encontrar. “Já temos contratado colaboradores de TI que ficam em tempo integral fora de São Paulo e, quem sabe um dia, fora do Brasil”, afirma Fajerman, do Itaú.


O executivo lembra que os bancos estão discutindo não só o futuro do trabalho, mas a necessidade de conciliar essa nova realidade ainda em um ambiente de pandemia. “Estamos dando um passo de cada vez, discutindo, criando juntos. Não teremos uma solução única para todos os departamentos. Estamos testando alguns modelos antes de chegar a uma conclusão. É um ‘ballet’ entre estudos sobre o futuro do trabalho e a evolução da pandemia.”


Procurado, o Santander preferiu não se manifestar. O banco nunca chegou a fazer um home office tão amplo quanto o dos concorrentes e, há meses, já adota o rodízio de suas equipes.

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